7 lições e meia em 2 anos de emigração

1. Aos olhos do mundo, perdi a minha nacionalidade. Sou emigrante. No Canadá, sou a portuguesa. Em Portugal, sou a "emigra".
Sinto-me, um pouco, sem identidade. Quando decidi ganhar dinheiro noutro país, não decidi que queria deixar de ser portuguesa. Não tenho intenção nenhuma de esquecer as minhas raízes! Não quero ser "canadiana". Sou uma portuguesa a viver no Canadá, só isso.

2. O Canadá nunca será visto por mim como o "meu país".
Não tenho bem a certeza se algum dia vou conseguir sentir-me em "casa"... talvez. Mas este não é o "meu país" porque esse está ali, na cauda da Europa, a ser destruído por politiquices. E mesmo destruído, eu amo-o.

3. Vou ter sempre vontade de voltar àquela que foi a minha casa. Todos os dias.
Todos os dias tenho vontade de ir ver os meus pais, o meu irmão, os meus sobrinhos, os meus tios, primos. Todos os dias sinto falta de algo que me seja familiar. Aquele "cheirinho" de casa, que até já não me lembro qual é...

4. As pessoas são uma merda. E eu incluída. Aliás: nunca me tinha apercebido do tamanho da merda que sou, até agora.
Foi das descobertas mais enriquecedoras da minha vida. Descobrir que sou uma merda. Que tudo o que fiz e deixei de fazer foi por puro egoísmo. Fiz sempre o que me parecia melhor pra mim, mas só parecia. Porque, na realidade, eu escolhia o mais fácil! Fácil e melhor não são sinónimos, Ana, sua idiota!

5. Saudade, solidão, descriminação, racismo, xenofobia - coisas com que tive de aprender a lidar diariamente!
Os dias, às vezes, parecem guerras emocionais. A saudade anda SEMPRE comigo, essa não me larga. A solidão, apesar de ser ocasional, é arrebatadora! A sensação de que não há nada de familiar, não há um tasco onde ir discutir futebol com alguém que lá aparece. Onde quer que entres sentes-te "diferente". Entro numa farmácia e sinto q os empregados estão "de olho em mim" só porque sou morena. Os latinos são vistos como grandes trabalhadores,sim, e chicos-espertos também. Os canadianos adoram-nos: para trabalhar em jardinagem, na construção, a tirar neve e nas limpezas. Trabalhos agradáveis, né? ;)

6. Aprendi a valorizar quem me ama. A minha família e o meu grande Homem são as minhas prioridades. Quero vê-los felizes mais do que nunca!
É quando as coisas estão completamente fora do meu alcance, que eu consigo ver o seu verdadeiro valor. Como disse, lá em cima, eu também sou uma merda. E, neste campo, estou cheia de culpa. Não dei o verdadeiro valor aos meus pais, durante tanto tempo... Agora, planeio redimir-me, todos os dias. Apesar de ainda não poder agir, planeio fazer o melhor para mim e para eles. Desta vez, não pretendo fazer o mais fácil!

7. Os amigos? Emigrar é o melhor sistema de triagem de amigos, sem esforço. Os bons, continuam a comunicar, é fácil!
O melhor que me aconteceu! Parar de perder tempo e paciência com gente que só me falava por interesse. E aquelas amigas que só te falam quando estão solteiras porque não têm mais ninguém para sair à noite? Não me voltaram a fazer perder tempo, eu já não estou ali "à mão de semear"... mas os grandes, os verdadeiros amigos, esses ficaram comigo, aliás, ouvi as melhores "declarações de saudade" da parte deles. Perfeito! Foi provavelmente um dos pontos mais positivos de emigrar.

7&1/2 . Tu, se não te sentes com "calo" pra levar estas lições e mais umas quantas (que me tenham escapado até agora), não emigres...
O ponto "sete e meia" fala por si ;) não necessita de mais explicações!

Comentários

Mensagens populares