S. Valentim

Hoje é dia 14 de Fevereiro. Não vou dar uma de "nunca liguei nenhuma ao dia dos namorados" porque seria mentir descaradamente. Sim, já dei muito valor ao dia dos namorados. Em criança parecia-me um dia mágico: namorados e maridos de todo o mundo esforçam-se para fazer as mulheres que amam felizes. Maravilhoso!
Quando tive o meu primeiro namoro sério, levei a sério todas as celebrações. Dia dos namorados, aniversários, aniversários de namoro, Natal... Todas tinham de ser especiais. Agora realizo que não lhe dava muita hipótese de me surpreender, de "ganhar". Eu tinha sempre muito menos dinheiro à minha disposição do que ele e comprava sempre o melhor presente. Trabalhava com o meu pai ao sábado, ele dava-me 20 euros e todo esse dinheiro era guardado. Nunca comprei roupas caras para mim mas comprava para ele... Agora percebo o quão exigente era comigo mesma. Mas eu preferia assim: dar menos do que o meu melhor, era uma perda de tempo!
Em 2007, quando já morava em Coimbra com o meu primeiro namorado, perdi o amor ao S. Valentim. Dia 14 de Fevereiro, ele cozinhou para nós, comprou vinho, ofereceu-me um presente melhor do que o meu - uns brincos de prata com brilhantes e eu só lhe tinha comprado um moleskine. Não sei o que se passou naquele ano mas ele "ganhou" sem eu estar à espera! Adorei a noite, achei que tinha sido a noite mais romântica da minha vida, inesperadamente. Dia 15 de fevereiro, quinta-feira, fui confiante à frequência que tinha às 9h da manhã. Saí da escola, entrei no Dolce Vita, enquanto chegava a hora do meu autocarro sempre via umas montras. Eu era assim - achava que não tinha tempo a perder, cada segundo era de aproveitar. Dei uma volta na Zara, tinha uma túnica na mão quando o telemóvel tocou, era a minha mãe, atendi. Tinha a voz nasalada "Aninha, a avó morreu na terça-feira. O funeral é hoje. Preciso que vás para casa, ja tens boleia à tua espera. Desculpa...". Acho que só lhe disse "Está bem...". Voltei a colocar a túnica no lugar enquanto digeria o que se estava a passar. Corri para a paragem do autocarro. As lágrimas não pararam de cair o caminho todo. A minha avó morreu e toda a gente me mentiu por causa de uma frequência!? O meu potencial, as expectativas que todos tinham sobre mim eram mais importantes do que eu. Mais importantes do que a morte da minha avó!
Assim morreu a magia de S. Valentim na minha vida. Ele sabia que a minha avó tinha morrido, toda a gente sabia e toda a gente me mentiu. Deu-me um dia dos namorados mágico. Com a magia da culpa.

Comentários

Mensagens populares