O ar parece que cheira a alfazema

Começas por perder o apetite. Não vês problema, "há fases assim". Não tens vontade de almoçar, "que se lixe". Não almoças. Repetes este dia durante umas semanas. Começas a arranjar desculpas para não comer, "fica aquela sopa para o jantar" "ontem comi doces demais à noite" "estou indisposta, se calhar é pior forçar." Notas a roupa larga e decides pesar-te - 4kg abaixo do peso recomendado - não é grave, não são nem meia dúzia de quilos. Habituas-te à roupa larga e à falta de apetite. Todos à tua volta estão tão preocupados mas "está tudo bem, a serio!!". Entretanto, reparas que não há nada no armário que não fique largo. Voltas a pisar a balança, perdeste mais dois quilos. Continuas sem apetite e começas a ficar preocupada. Começa a rotina de verificar o peso quase todos os dias na esperança de teres conseguido ganhar umas gramas. Mas essas gramas não chegam como o apetite, que foi e não voltou. Começas a forçar para comer e a ficar mal disposta a cada refeição. A partir da terceira garfada, tudo o que consegues comer são as lágrimas de frustração que correm. "Porquê eu??" perguntas-te a toda a hora. Tens a tua primeira fraqueza e entras em paranóia. Pesas-te todos os dias e todos os dias tens menos peso. 11kg abaixo do teu peso de sempre. 43kg para 1,70m. Olhas ao espelho e vês todo o teu esqueleto. Mais lágrimas de frustração. Um medo incontrolável de perder peso até morrer. E chega a pior parte - mentalizares-te que estás doente e que tens uma das doenças menos respeitadas de sempre: anorexia. Sabes que ninguém vai acreditar que nunca fizeste dieta, aliás todos comentam que estou muito magrinha e tenho de comer mais (se fosse assim tão simples, eu teria-o feito sozinha) enquanto fazem cara de quem está "enojado". A ansiedade e a depressão ocuparam a tua mente e enquanto não te livrares delas, não terás controle sobre o teu apetite nem sobre o teu corpo. E ninguém te vai compreender, não podes esperar por isso.

Mas vai chegar o dia em que algo de muito bom acontece (mesmo que seja algo que parece tão pequenino) e estás tão no fundo do poço que não tens outra solução senão agarrar-te a essa "corda" e subir, usando todos os teus restos de força. À medida que sobes, vais ganhando um pouco mais de força e esperança, vais vendo a ansiedade e a depressão lá em baixo, cada vez mais longe. Tens momentos de querer largar porque é difícil mas sentes que não podes. Não tens o direito de desistir de ti mesma!! E consegues. Chegas cá a cima e vês a vida tão mais bonita do que antes de caíres no poço... O apetite volta, as árvores são mais verdes, o ar parece que cheira a alfazema. Voltaste aos teus 54kg e saboreias a comida como nunca. Os teus pensamentos são muito mais serenos. Encontras a paz interior que tanto procuraste a vida toda. Começas a fazer coisas que sempre quiseste experimentar e a aproveitar cada dádiva da vida. Esqueces o ódio ao espelho. Vais até apaixonar-te por aquele pneuzinho ao fundo barriga porque, de cada vez que o vires, vais lembrar-te que és uma guerreira que venceu uma batalha tão dura e que está pronta para a guerra que é a vida.

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